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Olhar de Medusa

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Medusa - anônimo, séc.XVI, Galleria degli Uffizi (domínio público)     O ódio, a raiva, a revolta de não ser tudo o que gostaria de ser, de não ter o que os outros têm estabelece vivências de inveja. Essa atitude, essa vivência cria inúmeros estereótipos: é frequente desvalorizar o que o outro tem e que ele/a não tem acesso, é também comum roubar o que deseja e considera como direito seu. A inveja é um grande fator de despersonalização, pois o invejoso/a sempre quer ser ou ter o invejado.   Tudo é passível de inveja e pode levar a possuir um séquito de imitadores que procuram estar bem vestidos, bonitos, belas, pois os que cobiçam acreditam que fazendo o que o seu ídolo faz começariam a se assemelhar a eles, que são os que sabem realizar essa façanha de ser o idolatrado. A inveja conduz à ganância, assim como é estruturante de despersonalização resultante da não aceitação de si mesmo.   Querer o mundo do amigo é uma maneira de realizar o desejo de ser amig...

O medo

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  Não fazer nada, ficar quieto e calado, não se definir, manter a boca fechada, o olhar parado e os gestos contidos é amordaçamento. É não crescer, não participar e se omitir – é o medo. Essa vivência transforma o indivíduo em um receptáculo, uma coisa que recebe tudo que nele é jogado pelo outro. A continuidade desse processo gera inércia, apatia e submissão. É a subordinação resultante da falta de autonomia, de estar à mercê do que vai ocorrer.   Quanto menos ação ou movimento, menos problemas, mais tranquilidade, e também menos vida. A extinção diária das possibilidades relacionais cria sonâmbulos, mortos vivos considerados pelo outro nas suas necessidades de sobrevivência: casa, abrigo, proteção e alimento. É o sobrevivente restrito ao seu território ou com denodo lutando por ele. O medroso, o omisso age, atua, mas sempre no círculo demarcado de sua segurança e garantia. Ter medo é ter apoio e assim construir fortalezas e diques responsáveis por ac...

Oásis no deserto da impotência

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      Sentir-se culpado/a e responsável pelo que aconteceu ou pelo que não aconteceu é frequente quando não se aceita a própria realidade, e exatamente por isso conceituamos a culpa como o que esconde, o que tampa a impotência. Esse conceito é diferente da ideia psicanalítica que considera a culpa um dos mecanismos de defesa do Ego, uma explicação que caracteriza a expressão do Superego como exigente de renúncia a satisfações pulsionais, pois para Freud a culpa é sempre um sentimento que surge do conflito entre os desejos e a parte do Eu que os reprime. Lacan, por sua vez, acha que a culpa é uma construção social, não um sentimento pessoal.   A culpa é sempre um recurso para salvar postulados éticos ou alianças estabelecidas e negadas. A mãe que deseja a morte do filho, por exemplo, pois não aguenta mais continuar sem dormir é um caso extremo, e por isso não muito frequente, de vivências de culpa. Sentir-se culpado é esconder, tampar impotência e incapacida...

Onipotência resultante de impotência

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    Achar que pode solucionar qualquer situação de dificuldade, ter certeza que sempre resolverá problemas são exemplos estruturadores de onipotência. O onipotente é aquele que cai em uma cilada: está no fundo do poço, totalmente impotente, mas se agarra em objetivos, desejos e metas e a partir dos mesmos estabelece seus programas vencedores. A onipotência é construída pelas constantes vivências de impotência, ela é um deslocamento da impotência não aceita. Continuando incapaz, se sentindo fraco e sem condições o indivíduo estabelece programas, objetivos, e para eles caminha. Essa luta contínua obceca, ofusca. Ele só percebe os caminhos, os pontos a superar, o que tem que ser adquirido. Quanto mais amealha, mais se sente capaz. É o colecionador de suportes, de títulos, de ajuda, de orientações e aplausos. Pensa que basta unir os pontos do que deseja alcançar, e tudo será seu. Sua atitude onipotente é, assim, um contínuo superar de incapacidades, dificuldades e impotência. ...

Viver

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    Outro dia me perguntaram se viver é estar em relação, e respondi que tudo é relação. Relação não é atributo. Relação é dinâmica, é como o processo quântico. Não existe espaço, não existe vazio, não existe nada que não seja relacional.   O ser é a possibilidade de relacionamento. O indivíduo não é um conjunto de instintos, vontades, inteligência e aptidões que está no mundo para explicitá-las, descobri-las ou escondê-las. Nascendo apenas como possibilidade de relacionamento, ele é situado e demarcado por uma estrutura biológica, familiar, social, e é esse contexto que vai estabelecer os processos relacionais. Pensar é prolongar a percepção, perceber é estar em relação, é vivenciar. E viver, portanto, é se relacionar consigo mesmo, com o outro, com o mundo.   As possibilidades relacionais são infinitas, mas são também contingenciadas por situações restritivas ou ampliadoras que situam o processo relacional. Analogamente, a possibilidade de se locomover vai ...

Temporalidade – Condição humana inegável

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      Mesmo olhando para trás e lembrando de ocorrências estamos no presente realizando essa mágica, essa busca, essa fuga que é viver do passado e de lembranças. Também quando nos preocupamos, nos ocupamos previamente do que pode acontecer, igualmente estamos no presente. Essa antecipação - conjunturas revestidas de medo, ansiedade ou preocupação - é uma maneira de tentar descobrir ou evitar o que vai acontecer, mas, é uma vivência que está sempre ocorrendo no presente. Vivemos no aqui e agora, olhamos para trás, ou para a frente, ou para o que está diante de nós.   A temporalidade nos caracteriza e é ela que nos permite transcender a espacialidade de nossa contingência vivencial. Às vezes se pensa que é um clichê, uma regra inventada, dizer que o ser humano é contingenciado pelos seus aspectos tempo-espaciais.   Tempo e espaço nos situam, mas não nos constituem. Nossa constituição é a possibilidade de relacionamento e isso se dá sempre em um tempo e em um ...

Dilemas existenciais - Sobreviver ou existir?

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  Quando nascemos, sobreviver ou existir é uma questão que não se coloca. Nascemos e alguém nos permite sobreviver, geralmente nossos pais, família, ou, em algumas exceções, o Estado, a Sociedade.   Nascer durante uma guerra é quase ter assegurada a morte, é difícil sobreviver. Em condições de normalidade ambiental e social, o ser humano sobrevive, e nesse sentido é orientado por seus familiares, pela sociedade em que vive. Assim, sobreviver seria um processo natural, mas que no entanto é impedido em condições extremas de falta de alimentos, de doenças endêmicas ou pandêmicas, de lutas e conflitos sociais etc.   São sutis as diferenças entre existir e sobreviver, pois tudo é orientado para satisfação e concretização de nossas demandas orgânicas. Entretanto, quando não há luta para sobreviver, surge espaço e demandas para transcendências e transformações. É o ir além da satisfação das necessidades que permite indagação. Ao fazer perguntas, o ser humano começa a fil...

Fingimento

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    Fingir é um deslocamento da não aceitação da realidade. Fingimentos surgem no cotidiano diante de realidades que denunciam, incomodam e revelam dificuldades e medos. Como enfrenta-las? Negando-as, fazendo de conta que as mesmas não existem. Como fazer isso? O primeiro passo é fazer com que ninguém saiba, ninguém perceba a dificuldade. Isso acontecendo, tudo fica mais fácil. Se nega saber, se nega conhecer essa comprovada existência.   O flagrante, a prova é o maior inimigo do fingidor. Evitar flagrantes e disputas cria inúmeras realidades, estabelece descontinuidade, gera enigmas, arma quebra-cabeças e, assim, se consegue fingir em paz. Esconder o amante no armário era um bom método, agora não mais. Câmeras e portarias eletrônicas atrapalham. A melhor maneira de escondê-lo é transformá-lo em um empregado que veio consertar o ar condicionado, ou no amigo gay convidado para falar sobre o roteiro da próxima festa que vai acontecer, por exemplo. ...

“Tudo foi em vão, nada significa”

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      Decepção é o que se sente quando os sonhos falham ou quando as frustrações se evidenciam pela não recuperação de acertos, pela não realização de desejos etc. Viver apostando é sempre amealhador de decepções, pois é o ir além do existente em função de necessidades ou desejos engendrados pela não aceitação de limites. Fazer qualquer coisa para conseguir manter o que se tem, ou para conseguir o que se deseja é sempre alienador, transforma dinâmica em posicionamento e cria situações onde imolar, sacrificar são constantes em função de manter segurança, propósitos, ou determinações alimentadas por desejos autorreferenciados.   Querer a qualquer preço conseguir cria medo de falhar. Para evitar isso se inventa soluções consequentemente negadoras de realidade. De tanto inventar, de tanta busca desesperada o indivíduo se ensurdece com o silêncio do estar acima de tudo e de todos. É o isolamento conseguido pelos andaimes dos empreendimentos. Tudo segurado, garanti...

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