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Flexibilidade e enrijecimento

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Engessar, enrijecer é perder flexibilidade. Movimentos diminuídos, posicionamentos rígidos, assim como músculos enrijecidos (endurecidos), é o que acontece quando processos saturantes não são questionados. A imobilidade torna sem flexibilidade o que, por definição, existe apenas enquanto movimento, enquanto possibilidade de relação. Indivíduos compromissados, que se apegam rigidamente a pontos de vista, que não admitem outras visões além das próprias, que se sentem seguros e garantidos por a priori , assim como os tolerantes e bem intencionados, mas incapazes de perceber as inúmeras variáveis das situações à sua volta, bem exemplificam o processo de enrijecimento, de autorreferenciamento. Estar disponível, aceitar limites é flexibilidade no relacionamento com o outro e com o mundo. Poder entregar-se às paixões ou delas fugir é um exemplo de não endurecimento, de não compromisso com regra e desejo. É muito difícil, intolerável até, viver esmagado, bitolado por regras e desejos, ob...

O Nada - sem expectativas

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Estar contido, limitado pela vivência do presente é o que acontece em situações prisionais, conventuais e de exílio, onde a falta de perspectivas caracteriza a vivência cotidiana. Geralmente, toda situação de sobrevivência transforma o presente, o aqui e agora, em um ancoradouro, um porto seguro. Órfãos de guerra, crianças abrigadas por conventos e outras instituições são um exemplo onde a vida começa no intervalo do término. Não há antes, não se tem mais laços, não se tem contatos com o anterior estruturante de vivências. A nova vida é esgotada no agora, qualquer interrupção da mesma é a descontinuidade estruturadora de questionamentos, dúvidas e conflitos. Sem referenciais, sem respaldos, sem história - arquivos responsáveis por preferências e antipatias - o indivíduo colapsa e, ao se voltar para o existente, percebe estranheza: as familiaridades circunstancialmente estabelecidas não se mantêm. Da mesma forma, ao se voltar para o novo, ele é tragado por incertezas geradoras...

Bricolage

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Bricolage é a improvisação, o trabalho pouco cuidadoso onde uma série de peças ou situações são arregimentadas, organizadas em função do que se quer produzir improvisadamente, adaptando-se aos materiais e circunstâncias. Este sentido de improvisação, transformadora e realizadora de necessidades, conferiu à bricolage, acepção de criatividade, quer como sinônimo de improvisação criadora, quer como responsável por soluções artísticas. Aproveitar o que pode ser improvisado é gerar substituições adequadas e também anômalas, consequentemente inadequadas. A vida em grupo, a estrutura frágil de algumas comunidades que são polarizadas em função da realização dos objetivos que a formaram - geralmente contingentes - cria verdadeiros híbridos de propósitos. Existem comunidades formadas para a prática de crimes, preocupadas em estabelecer paz e tranquilidade entre seus constituintes e isto equivale a uma reciclagem para satisfazer necessidades: para manter as ações criminosas precisa-se d...

Cordialidade e violência

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A cordialidade, o agir de coração, o ser generoso, dadivoso é um dos traços nacionais, segundo Sérgio Buarque de Hollanda. “O brasileiro é cordial", durante muito tempo se pensou assim e causa espanto a constante violência exercida na família, na política, nas grilagens, na usurpação de direitos exercida pelos brasileiros. Como entender? Foi a colonização? São as necessidades que desvirtuaram essa cordialidade? O brasileiro é cordial, age por coração, é espontâneo em seus desejos e necessidades, como é feliz por viver em um país tropical debaixo do Equador, ou seja, é circunstancial, dedicado a suprir necessidades e tudo aproveita do que lhe é apresentado. Um episódio recente desencadeou uma reação de grande proporção, reverberando nas redes sociais e outros veículos, que bem demonstra a violência insuspeita dos brasileiros, a enorme desproporção entre delito e punição reivindicada. Trata-se da condenação à morte, de um brasileiro na Indonésia, por tráfico de drogas. Esta c...

Filtros participatórios

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Relacionamentos reduzidos às dimensões utilitárias, pragmáticas e de ajuste têm, como características, módulos de absorção para incongruências, dissonâncias e incompatibilidades. Nestes relacionamentos, compreender, renunciar, negociar são maneiras de cobrir evidências, fluidificar o objetivo nítido e denso, encorpando à boa disposição e à tolerância, elementos sutis e não explícitos nas vivências de desencontro. Os próprios indivíduos em relação se transformam em um muro de contenção, para-choques de brigas e desentendimentos em função do que precisa ser mantido. Quando os relacionamentos se fundamentam em necessidades, aperfeiçoar a tolerância, a filtragem do que atropela, é o que permite a manutenção e aproveitamento do que antes era nocivo, cheio de impurezas. Pouca água potável requer desenvolvimento de sistemas de aproveitamento, de purificação - a vida tem que ser mantida. Relações difíceis, tempestuosas, personalidades abruptas precisam ser abraçadas, compreendidas. Viran...

Envolvimentos desintegradores

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Alguns envolvimentos afetivos sedam e apenas aplacam necessidades. Aplacar necessidades, das sexuais às de sobrevivência, é transformar o outro e a si mesmo em objeto, ou ainda, é manter e preservar um posicionamento contingente. Perceber o outro como possibilidade de satisfação e realização é uma maneira de estancar dificuldades, pendências e carências. A percepção do outro, quando se esgota em si mesma, quando não atribui valores, vantagens ou desvantagens, cria um contexto de disponibilidade, de vivência não atributiva, que pode integrar individualidades díspares. É a magia do encontro, do amor, frequentemente acontecendo, mas raramente continuando. A disponibilidade, a descoberta de outro ser, pode existir, mas, quando as estruturas são fragmentadas, posicionadas, autorreferenciadas, a duração deste processo é curta. São os átimos de paixão, os arroubos de ilusão, o desespero do desejo, facilmente atropelados, superados pela realidade da não aceitação. Quando o indivíduo não ...

Desânimo e imobilidade

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Referenciais, regras, padrões, encontrados ou construídos, sinalizam direções e impedimentos, restringem e ampliam os espaços, os contextos relacionais e, assim, tudo que é percebido e pensado como possibilitador, como bom e congruente, harmoniza, organiza e tranquiliza; enquanto o que é considerado impeditivo, desafiador, incongruente, desorganiza e fragmenta, gerando ansiedade. O a priori da familiaridade, da congruência, tanto quanto da estranheza, da incongruência são estabelecedores destes sistemas de referência. Colocar referenciais, regras, como resultantes de a priori é negar qualquer imanência constitutiva das mesmas. Esta situação paradoxal e artificial é frequentemente vivenciada no autorreferenciamento, que reduz tudo que o circunda e referencia às próprias constatações, desejos, medos, acertos e dificuldades. Os sistemas de referência, neste caso, no autorreferenciamento, são organizadores ou desorganizadores. Deslocamentos são criados para fugir dos impasses, dos ...

Adiamento

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Tudo que resulta de uma meta - expectativa do futuro - gera ansiedade que só é detida, só é diminuída, pela constatação da impotência diante dos limites impeditivos da realização de desejos, da realização de necessidades. Aceitar a impotência é abranger os limites responsáveis pelos adiamentos, pela não realização. Esperar que aconteça o que se quer ou o que é necessário acontecer, é uma situação que cria ansiedade e impotência. Frequentemente a saída é também o fechamento, o impedimento, ou seja, se usa a impotência, o estar limitado, o não ter condição, como maneira de ampliar espaços para conviver com frustrações e adiamentos; quando isto é feito surge a divisão entre conveniências (manutenção) e inconveniências (desistência). Estas divisões que ampliam espaço são, na continuidade, fragmentadoras. A quebra dos limites por divisão - pulverização dos mesmos - reduz artificialmente as expectativas e consequentemente as frustrações, ao direcionar atitudes e motivações para constat...

Faz de conta

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Estabelecer objetivos que se julga realizadores e satisfatórios e achar que alcançá-los significa segurança e tranquilidade é um faz de conta. Toda vez que se pretende realizar ou alcançar alguma coisa, se busca suprir um desejo, uma necessidade. Este esforço de realização, este empenho, transporta o cotidiano, o dia a dia, para depois. O futuro, através do desejo que se precisa que aconteça, invade o presente, e como tal, cria o vazio. O presente atropelado, esmagado pelas expectativas, é apenas o ponto de tensão. Voltados para o depois, não se vê o que está acontecendo, pois que tudo é percebido no contexto do que vai acontecer, do que se deseja que aconteça. O cotidiano, a vida é lançada para depois, os marcos variam desde o dia do casamento à formatura do filho e até ao ficar esperando ganhar na loto, por exemplo. Quando não se tem mais o que desejar, o que esperar, espera-se, teme-se perder coisas: o que foi conquistado, ter prejuízos e mesmo a morte. Adiando sempre para dep...

Recompensa e ambição

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Sentir-se capaz por ter cumprido etapas e conseguido o mínimo de representatividade, é transformado em ter direitos, em merecer cuidados e atenções. Neste posicionamento autorreferenciado, colocando-se como centro dos processos, o indivíduo busca, através do que é justo e “de direito”, suprir suas carências e necessidades. Esta atitude permeia todos os esforços e costura “cortes e remendos”. Na dimensão social, onde tudo é avaliado enquanto “pertencimento” a comunidades, a grupos que significativamente indicam merecimentos e direitos, os reconhecimentos das capacidades individuais são transformados em estratégias dirigidas a outros objetivos - políticos de preferência. Psicologicamente, quando alguém se sente capaz e imediatamente merecedor de direitos, ele trilha seu caminho relacional oscilando entre impotência e onipotência, flutuando entre ser vítima e capataz. O constante interesse em descobrir pontos fracos nos outros - incapacidades e desejos - é uma arma que lhe permite a...

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