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Rejeitados

Ser sempre desconsiderado, percebido apenas como ocupante de um espaço faz com que o indivíduo aceite não existir significadamente, admita existir apenas em função de demandas, de respostas ao solicitado, ou faz com que construa motivações para ser alguém, para chamar a atenção, para ser considerado, nem que seja por indisciplina e maldade. Ser isolado do mundo, do relacionamento familiar, ou ser julgado inútil, desagradável e prejudicial cria os submissos, tanto quanto os revoltados. É frequente nas famílias de renda abaixo da média e cheias de planos de ascensão social (metas) considerarem os filhos “uma boca à mais, um fardo” e, como tal, desconsiderados enquanto individualidade. Submetidos à diária alegação de como eles precisam retribuir o que foi e é gasto, são cada vez mais exilados do afeto, despersonalizados e programados para mais tarde retribuir tudo que receberam. Agradecer toda a ajuda, o pão cotidiano e correr atrás da meta, da realização é uma constante esvazi...

Deslocamentos e pânicos

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A ansiedade se caracteriza pela atividade repetida irrefreável, que vai desde o pensar, repensar, pensar de novo até agir, andar de um lado para o outro, fazer, refazer, antecipar ações, sem saber o que ocorre. Impedindo concentração e contituidade, a ansiedade desestrutura o indivíduo. É exatamente por causa desta desestruturação que ela é bem-vinda, por mais estranha que esta afirmação pareça. Estar ansioso é não perceber as não aceitações, os medos, as culpas e conflitos. Na dinâmica psicológica tudo é globalizado enquanto interação, mas ela não é percebida quando surgem os curto-circuitos, tal como acontece na ansiedade. Deter-se na ansiedade, estar nela posicionado, cria outros deslocamentos, o pânico, por exemplo. Não saber como agir, estar submetido ao turbilhão de dúvidas e demandas, posiciona o indivíduo e neste momento, o pânico aparece. O pânico, como deslocamento da ansiedade, é um ponto de segurança, permite que, se detendo nos sintomas desconfortáveis, incômodos...

Especificidade estruturante - personalidade

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Cada ser humano realiza um resumo de todas as variáveis que o estruturam: relação com a família, com a sociedade, a educação, suas vivências, seus comportamentos, medos e desejos, tudo isto é resumido de uma forma específica em cada um. É quase um imperativo, uma necessidade, sempre contingente. O processamento de relações é realizado pelo autorreferenciamento ou pela disponibilidade, ensejando sempre novas configurações e, assim, contextos e atitudes são estruturadas. Uns se caracterizam pelo orgulho, outros aceitam o que lhes é propiciado, outros ainda pagam para ver, desconfiam. Tudo isto constitue o que se poderia chamar de o ponto básico de cada um. Não é uma tendência, tampouco um instinto, é o resultado final de processos que estruturam contextos de valores, de significados que permitem mapas organizadores e sinalizadores. Isto é o que faz com que se saiba com quem se lida, o que atinge ou é indiferente ao outro. Tendo sido educado e aceito para sobreviver, não importa...

Apropriação

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Não se aceitando, buscando ser aceito, buscando impressionar, mas sem recursos próprios, o indivíduo apropría-se de vivências, de conhecimentos e histórias alheias para compor uma imagem que signifique dentro de padrões valorizados. Está sempre repetindo opiniões e ações de outros como se fossem suas, falta-lhe autenticidade. Seus esforços direcionam-se a observar para apropriar-se, tudo se transforma em informações a serem acumuladas e utilizadas. Viver amealhando vivências de outros é realizar colagens descontextualizadas, misturas sem consistência, imagens despersonalizadas. Tudo é realizado em função de agradar, de marcar presença, mas, para isto, é preciso esconder e despistar a própria incapacidade, não ser percebido como quem imita e copia, é preciso manter as imagens que garantam o disfarce, que evitem ser descoberto. O processo de apropriação transforma os outros e a si mesmo em objeto, necessariamente levando a enganos, mentiras e violência. A coisificação do humano...

Sem alternativas

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Limites extremos são aqueles nos quais em situação de total impotência, sem alternativas, o indivíduo tem que escolher a destruição de sua própria vida. Nem sempre as dificuldades se colocam como alternativas entre “a bolsa ou a vida” . Às vezes, ou se joga no abismo, ou desmaia, ou cai nas garras do perseguidor. Tentar mudar o panorama que aflige, que promete destruir é possível quando se imagina transformar o agressor, o redutor de alternativas, em uma possibilidade de diálogo. Esta atitude mágica, pois considera situações não existentes - o diálogo por exemplo - geralmente não funciona, salvo se significar confundir, jogar areia nos olhos do que está diante. Apostar no impossível pode remover obstáculos ao gerar uma atitude diferente de passividade, de medo. Fazer surgir interlocução é tentar obrigar o outro a ser diferente do que ele se propõe, criando interatividade. Isto gera mais raiva, mais agressão ou elastece os limites, permitindo reconfigurações. Em certo sentido, es...

Escolha

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Volta e meia aparecem no Facebook, comentários de leitores, nos quais a questão da escolha está embaralhada (conceitos e implicações). Achei oportuno postar este capítulo de meu livro “Relacionamento, trajetória do humano” , de 1988, pags. 49-51, no qual a conceituação de escolha, no contexto da Psicoterapia Gestaltista, está estabelecida. Escolha Escolher, geralmente, é considerado sinônimo de preferir, tanto quanto foi celebrado como resultante de liberdade, de não compromisso, por Satre que, em certo sentido, continua a ideia kierkegaardiana de ausência de critérios na escolha. A escolha como preferência já resulta de um compromisso com motivações, situações, posições prévias ou antecipadas, chegando, assim, a identificar-se com gosto, com preferência * e, daí, o gostar tornar-se sinônimo de convivência contínua com o escolhido, bem ao sabor de certas ideias vigentes de que familiaridade, convívio, adaptação, hábito, costume, condicionamento fabricam o gostar. ...

Desvios e caminhos - Dons e talentos

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Considerar que ao escolher um caminho, uma profissão, se deixa, se abre mão de outras tantas, atordoa. Esta disponibilidade infinita causa sensação de fracasso, de despropósito. Solto, sem amarras, tudo soçobra. Não é por acaso que surgem as predeterminações, os talentos, dons e finalidades familiares e/ou sociais que tudo definem e materializam. Escolher uma profissão, uma forma de viver, um parceiro/acompanhante para a vida, é o predisposto. As dispersões exigem esta viabilidade. Qualquer atitude que fuja do padrão determinado é considerada excêntrica, desviante e ameaça tanto quanto motiva. Quebrar paradigmas abre novos panoramas, tanto quanto dizima tediosas atmosferas. Desvios se transformam em caminhos, pois sempre levam a novas configurações ao exercer sua função de passagem. Exatamente nesta mediação (passagem) surgem antíteses reveladoras e possibilitadoras de insight . Esta mudança é que valida o estar no mundo. Geralmente se chega a este momento de antítese com a esco...

Congruência

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Bitolado pelo que considera adequado e inadequado o indivíduo se desespera, procura adaptação, evita fugir dos padrões que massacram, que são vivenciados como inadequados, busca garantias, segurança, agarra-se às metas e propósitos saneadores de seu mal-estar. Para ele é sempre o outro quem determina se há acerto ou erro, ou substitui o outro e seu julgamento pelos resultados de sucesso ou insucesso. As vivências de sobrevivência sempre são configuradas por garantias e respaldos econômicos familiares e institucionais. Situações extremas ameaçam e tornam nebulosas essas configurações, exigem que a segurança e os cuidados sejam reforçados. Todas as motivações e preocupações se voltam para salvar a si mesmo e evitar impasses. Nesse contexto permeado de crises as dificuldades, os conflitos e medos são transformados em incentivo para sobreviver. Quanto maior o medo, a não aceitação, a alienação e despersonalização, mais tudo conflui para espreitar, cuidar e garantir o inefável. E assi...

Dispersão

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Perder perspectivas, posicionar-se nas frustrações impede participar com o que ocorre enquanto situação que está ocorrendo. Tudo é percebido através de filtros de avaliação, vitimização e queixas. As tensões aumentam, a não aceitação da não aceitação do que problematiza é cada vez mais enfática e demanda escoamento para que haja um mínimo de dinamização, ou mesmo de locomoção. Deslocamentos aparecem, não se sabe o que se faz. As circunstâncias decidem, e assim, o desespero é o contínuo esfacelamento de possibilidades e questionamentos. Vive-se para suprir necessidades, esquecer dores e exibir, propagandear soluções, tentando através de companhias, de ajudas, conseguir bem-estar. Sempre que decisões são adiadas por envolverem dificuldades, medos e riscos, os dilemas e contradições se transformam em “caixas-pretas” assoberbadas. O vôo cego é constante, as direções, as motivações são dispersas, contingentes. Neste mundo circunstancializado não há sintonia, pois não existem frequênci...

Impressionabilidade

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Organizar os próprios desejos, medir a dificuldade em função de esquemas solucionadores, desorienta quando os mesmos são ameaçadores. Quando não existe aceitação, quando existe desconsideração e rejeição, as pessoas acreditam que através de poder e status serão aceitas e consideradas. É notória a idéia de riqueza, beleza e poder como solução de todos os males, e a tal ponto que a busca pelo dinheiro neutraliza o medo de ser descoberto em roubos na esfera privada ou pública. É também exemplar a busca da representatividade competitiva e vencedora, através de soluções estéticas padronizadas e embelezadores artificiais, conseguidos pelo esforço diário de malhar ou tomar pílulas, por exemplo, ou submeter-se a próteses. Quando qualquer ameaça impede este “correr atrás” do que pensa ser solução, encontramos impressões acentuadas de falha, fracasso e medo. Nestes momentos, a pessoa se sente desconectada, separada do que a apoia e do que pode construir seu sucesso. Sente-se à mercê das ...

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