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Seguir é se perder

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As militâncias são informes, apesar de densas. É a clássica manada. É o seguir sem saber o quê, apenas garantindo o lugar que lhe é destinado. A melhor maneira de negar processos, mudanças e evidências é valorizando seguidores. Segue-se o que está sendo seguido, que por sua vez segue o outro seguido. O que resulta, o que acontece é a expressão da contradição, mas precisa ser catapultado à nova ordem. Em todas as esferas, da individual à social, isso é uma evidência, entretanto, quase sempre é obscura, ambígua, a evidência não é percebida, pois muitas variáveis, inúmeras situações se interpenetram. É a confusão, o não discernimento, a descontinuidade. É exatamente nesse momento da descontinuidade que as lideranças manipulam, levando sempre a discriminar e assim polarizar a multidão que é cega, pois a ela compete andar, seguir. Transformar questões qualitativas - evidências, constatações - em dados, em polarizantes, em formas de angariar adeptos, é o que vem sendo feit...

Proselitismo

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Os prosélitos, os que foram atraídos e recém convertidos para religiões, partidos, seitas ou doutrinas são também os neófitos, ou ainda, os arrebanhados por catequeses e acenos de vantagens propiciadoras de poder ou de bem-estar. Quem mais arrebanha e aumenta suas fileiras é aquele que constrói poder, que ganha força para deliberar, rejeitar e aceitar. Lutar e catequizar são maneiras de conseguir prosélitos, fanáticos, militância aguerrida para manter suas conquistas de poder, trabalho, dinheiro ou vida eterna, a felicidade no reino dos céus. A acomodação, o se apegar às tábuas de salvação, identifica e ampara os prosélitos. Não podem perder o conquistado, não podem deixar o reino de Deus ser ameaçado (amaldiçoado); partem, então, para criminalizar, destruir, matar o que ameaça, o que já foi conseguido; nada pode desacomodar o que foi conquistado. Acomodação é um dos mais perigosos sinais de alienação. É por meio dela que o outro é destruído: “ imigrantes vão tirar nosso con...

Mutilações e realizações (BIID)

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Os processos da alienação, da não aceitação do próprio corpo robotizam em relação ao mesmo, atingindo dimensões incomensuráveis e espantosas. Outro dia, lendo, fui surpreendida pelo conhecimento da Body Integrity Identity Disorder (BIID) , Transtorno de Identidade de Integridade Corporal, TIIC como é conhecida em português. A BIID é rara, pouco estudada e de condição escondida, secreta. Consiste no desejo de mutilar-se e na realização de amputação de membros saudáveis (pernas, braços) ou em mutilações como provocar cegueira em si próprio ou quebrar a própria coluna vertebral. Nela existe fundamentalmente um desacerto, um desencontro, uma não aceitação entre o corpo que se deseja e o corpo que se vê. Nesse sentido, a BIID se insere em toda a problemática do desejo, meta, não aceitação, em medos e dificuldades, ou até mesmo na clássica definição de Krafft-Ebing sobre parafilias, expressa em seu livro de 1886: Psychopathia Sexualis. O característico dessa não aceitação, dessa ...

Ciladas da sobrevivência

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Transformando suas possibilidades em necessidades, vivendo em função de acomodações e medos, de inseguranças e dificuldades de enfrentar o que ameaça e compromete, o ser humano é aprisionado nas suas dimensões de acomodação. Estrangulando suas possibilidades de mudança, de transformação, cada vez mais ele se confina, se situa no que o apoia, no que lhe permite exercer seu bem-estar: dormir, comer e manter mínimos prazeres de boa convivência, sexo e imagens sociais. Quando isso é ameaçado, não sabe como agir. Angustia e ansiedade são seus orientadores comportamentais e assim ele descobre que morrer - se suicidar - é uma forma de sobreviver. Realiza seu lema: quando não aguentar, quando não mais conseguir, morrer. Suicidar-se é a saída de emergência, é o capital, a reserva que garante e permite exercício de irresponsabilidade, parasitismo e dedicação ao seu jeito de ser, aos seus vícios, hábitos e medos. A própria angústia é a bola de neve, que para ser evitada o lança n...

Desprendimento

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Abnegação e renúncia frequentemente escamoteiam medo (omissão) e impotência, tanto quanto se constituem em investimento para realização de papeis sociais como os de pessoas de boa alma, simples criaturas nada ambiciosas mas capazes de ajudar o próximo, justificando as instituições que as amparam. Desprendimento é generosidade. Existe apenas quando exercido por pessoas disponíveis. O não estar comprometido, o não estar voltado para o depois, permite que se seja desprendido frente a obstáculos e impasses. Abrir mão é neutralizar o conflitivo, tanto quanto abdicar é permitir o aparecimento de outros processos, outras configurações, nas quais novas realidades e motivações se desenvolvam. Quando os conflitos são neutralizados inauguram-se outras esferas para a continuidade e ela é restauradora: o quebrado é transformado. Abrir-se ao novo, tanto quanto possibilitá-lo, depende de perceber o outro, seus impasses e dificuldades. Este caminhar junto, acompanhar é empático, é simp...

Insaciabilidade

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É insaciabilidade querer conseguir mais para garantir o próprio futuro e segurança, para não morrer por falta de cuidados. Esperar o pior e o súbito e estar para eles preparado é o objetivo característico dos processos de não aceitação de limites, de não aceitação de impossibilidades e da realidade. Viver sozinho e querer a qualquer momento ter alguém apto a ajudá-lo, por exemplo, é desespero configurado pelo impossível desejado. Para esses indivíduos, deve acontecer o que é necessário em função de seus problemas e demandas que precisam ser resolvidas, não importando o fato de não existir condição para satisfazer esses desejos; o que importa é acontecer o resultado almejado. A vivência desse constante impedimento, causado pelo paradoxo não atendido, cria atitudes de expectativa, de ansiedade, orientadas para predar. Dos filhos, empregados, sem esquecer os vizinhos e amigos, todos são vistos como reservas para as horas difíceis. Os estoques do que pode ser utilizado acarretam ...

Desacertos e regras

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Quando existe não aceitação de si e dos problemas resultantes dos compromissos e obrigações cotidianas, surgem desespero e frustração, e nesse contexto é comum o deslocamento de problemas, chegando mesmo a ocorrer imobilização por doenças que inviabilizam o dia-a-dia e criam novas rotinas. Assim, após esse descanso, essa descontinuidade ocorrida pelos deslocamentos, pelas doenças, o indivíduo retoma suas atividades, suas funções muitas vezes execradas em relação à família por exemplo, ao trabalho e até mesmo aos filhos. Na retomada dos afazeres e relacionamentos é necessário apoio, uma base que permita ação, desde que a motivação é impossível diante do que aborrece, do que não se gosta. Neste momento a culpa aparece e é uma varinha de condão eficiente para organizar o cotidiano, para criar regras, determinar o que se pode e o que não se pode fazer, e então, pelas regras adotadas e cumpridas, atinge-se paz e tranquilidade.  As regras também exigem preocupação, cuidad...

Nó Górdio

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Nó Górdio - Mosaico Antigo No centro da atual Turquia, próximo a Ankara, ficava a antiga cidade mais importante da Frígia: Gordion. Pouco se sabe da história da Frígia além dos mitos que envolvem seus reis Górdio e Midas. Em um desses mitos a linhagem dos dois reis é contada a partir de Górdio, o camponês que virou rei. O antigo rei da Frígia não tinha herdeiros e quando morreu o Oráculo disse que o rei sucessor chegaria em um carro de bois. Quando um camponês, chamado Górdio, chegou à cidade em seu carro de bois, foi coroado rei, e em seguida colocou a sua carroça no templo de Zeus amarrada com um nó forte. Esse nó ficou famoso por ser muito difícil, até impossível de ser desatado, ficando conhecido como o nó górdio. Górdio teve apenas um filho, chamado Midas, que o sucedeu no trono, mas que, por sua vez, não teve filhos, não deixou sucessores. Consultando novamente o Oráculo ficou estabelecido que quem conseguisse desatar o nó de Górdio seria o próximo rei e dominaria...

Descobertas

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“Duas linhas são iguais se elas coincidem” é um dos enunciados da geometria de Euclides. Isso parece óbvio, mas não é quando tentamos entender o que significa igualdade. Parâmetros e instrumentos são necessários para essa verificação. Medir, comparar são formas de verificar. Caso não se lance mão de outro parâmetro além das linhas em questão, como compará-las? Considerando o enunciado do próprio Euclides: pela coincidência. Essa redução das duas linhas a elas próprias implica encontro, nada mais que isso. Assim, a igualdade surge, ou seja, é igual pela absorção, quando uma linha encontra a outra e nela se perde, se completa. O diferente é o mesmo, o duplo, agora, é a unidade. Essa possibilidade de integração é o que norteia e determina a trajetória do humano quando percebe o outro. Essa integração decorrente do encontro, essa coincidência, não é muito frequente, pois a fragmentação dos processos quebra a continuidade e estabelece óbices, os pontos de dificuldade e ...

Insinuação de presença

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A insinuação de presença - outro dado e contexto - é realizada pela transformação da parte em todo, por meio da closura, fechamento e complementação do percebido, que colocado em seus contextos anteriores recupera totalidades. A complementação do insinuado, apresentado e percebido, é feita com auxílio da memória, de outra Gestalt , outra forma, outro contexto que alavanca e cria novas direções, completando o vazio, a ausência do que não se mostra, do que não aparece. Percepção de ausências, senhas para continuidade, pinceladas reconstrutoras, como por exemplo ver o sapatinho do filho no meio da casa, desencadeia medos e apreensões. A foto que ilustra este artigo, retirada do livro O Destino da Africa * , faz perceber a tristeza do pai ao ver o que restou de sua filha, reconstituindo-a para nós. Existe apenas o resíduo - a mão e o pé da criança - demonstrativo de todo o horror desumanizador exercido pelo rei Leopoldo no Congo. A reconstrução do todo por meio de suas partes é ...

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