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Propósitos e ilusões

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Uma maneira considerada boa e privilegiada de educar filhos e alunos, de gerenciar situações e consequentemente realizar desejos, é estabelecer objetivos, estabelecer propósitos e assim criar caminhos, condições de realização do pretendido. É exatamente neste criar condições que se estabelecem os melhores caminhos, as menores distâncias e por conseguinte, se simplifica a pluralidade de interseções, se simplifica as inúmeras variáveis, criando segmentos lineares, determinantes de posicionamentos dos propósitos. Ao estabelecer as melhores condições para realizar um objetivo, dicotomiza-se, corta-se estruturas para que se adaptem, para que sejam do tamanho do sonhado, do desejado e com esta atitude, minimiza-se, diminui-se o pretendido. Representações começam  a significar, eventos de comemorações são mais significativos do que o que se comemora, a função encobre e pretende substituir seus estruturantes. Na clínica psicológica diária nos deparamos constantemente com questões de ...

Precariedade

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Quando se vive com expectativas, esperando resultados, torcendo para que sonhos e desejos se realizem, instala-se precariedade no cotidiano, na própria vida. A instabilidade, a insegurança, a vivência de falta, de não atendimento de demandas é constante. Essa precariedade resulta de não se viver o presente, de não se aceitar dificuldades e frustrações. Querer melhorar e ultrapassar dificuldades, sem considerar o que as determinam e ensejam, é uma atitude de não aceitação que gera revolta e ansiedade, matéria-prima da raiva, inveja, medo e intranquilidade. Flutuando, sem apoio no existente, pois o existente é o que se deseja ultrapassar, o indivíduo, inconsistentemente movimenta-se em função do que o protege e justifica, paradoxalmente se abriga nos próprios problemas, pois os mesmos justificam todas as suas dificuldades e vicissitudes. Agarrar-se em dogmas, em crenças, utilizando respaldos do que é garantido, do que funciona cria instrumentalização e reutilização. Nada é orig...

Empenhos

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Frequentemente, no afã de realizar os próprios desejos, se estruturam processos de cuidar do outro, de se dedicar ao outro. Pais e mães dedicados aos próprios filhos, por exemplo, os absorvem de tal modo que impedem o desenvolvimento de vida própria dos mesmos, constuindo assim, representantes de si próprios, mais tarde responsáveis pela manutenção e continuidade dos desejos familiares. Este empenho leva a sintonias, mas também pode ser dissonante, dissociado da própria individualidade. Realizar o esperado pelos pais é anulador: a transferência de sonhos e propósitos se dá sempre em um outro contexto e atmosfera, causando tensões aparentemente inexplicáveis, criando incapazes, viciados e desorganizados, tanto quanto brilhantes representantes do que foi ensinado, representantes dos treinamentos despersonalizadores. Em função dos empenhos buscados e realizados, as relações dentro das famílias vêm se desagregando cada vez mais. Hipotecar desejos e sonhos, por exemplo, cria dependênc...

Questionar

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Frequentemente se pensa em questionar como sinônimo de perguntar. Na Psicoterapia Gestaltista, questionar e perguntar não são sinônimos, referem-se a situações diferentes. Entendo questionar como sendo a fala, e até mesmo a pergunta, que resulta da globalização das inúmeras variáveis que interferem em um comportamento, em uma motivação. Desta forma, o questionamento permite sempre percepção do que não se percebia, do que era Fundo , do que era contexto estruturante da motivação, do que era estruturante do comportamento. Consequentemente, através de questionamentos são estabelecidas antíteses. Pensar em questionamento como sinônimo de pergunta é pontualizar, parcializar processos. Para o posicionado em zonas de conforto ou de necessidade é difícil apreender configurações relacionais, pois os momentos principais de seu dia-a-dia são esgotados em ordens convergentes ou divergentes. As reduções binárias - em função dos autorreferenciamentos de alívio/dor - impedem a apreensão das din...

Flexibilidade e enrijecimento

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Engessar, enrijecer é perder flexibilidade. Movimentos diminuídos, posicionamentos rígidos, assim como músculos enrijecidos (endurecidos), é o que acontece quando processos saturantes não são questionados. A imobilidade torna sem flexibilidade o que, por definição, existe apenas enquanto movimento, enquanto possibilidade de relação. Indivíduos compromissados, que se apegam rigidamente a pontos de vista, que não admitem outras visões além das próprias, que se sentem seguros e garantidos por a priori , assim como os tolerantes e bem intencionados, mas incapazes de perceber as inúmeras variáveis das situações à sua volta, bem exemplificam o processo de enrijecimento, de autorreferenciamento. Estar disponível, aceitar limites é flexibilidade no relacionamento com o outro e com o mundo. Poder entregar-se às paixões ou delas fugir é um exemplo de não endurecimento, de não compromisso com regra e desejo. É muito difícil, intolerável até, viver esmagado, bitolado por regras e desejos, ob...

O Nada - sem expectativas

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Estar contido, limitado pela vivência do presente é o que acontece em situações prisionais, conventuais e de exílio, onde a falta de perspectivas caracteriza a vivência cotidiana. Geralmente, toda situação de sobrevivência transforma o presente, o aqui e agora, em um ancoradouro, um porto seguro. Órfãos de guerra, crianças abrigadas por conventos e outras instituições são um exemplo onde a vida começa no intervalo do término. Não há antes, não se tem mais laços, não se tem contatos com o anterior estruturante de vivências. A nova vida é esgotada no agora, qualquer interrupção da mesma é a descontinuidade estruturadora de questionamentos, dúvidas e conflitos. Sem referenciais, sem respaldos, sem história - arquivos responsáveis por preferências e antipatias - o indivíduo colapsa e, ao se voltar para o existente, percebe estranheza: as familiaridades circunstancialmente estabelecidas não se mantêm. Da mesma forma, ao se voltar para o novo, ele é tragado por incertezas geradoras...

Bricolage

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Bricolage é a improvisação, o trabalho pouco cuidadoso onde uma série de peças ou situações são arregimentadas, organizadas em função do que se quer produzir improvisadamente, adaptando-se aos materiais e circunstâncias. Este sentido de improvisação, transformadora e realizadora de necessidades, conferiu à bricolage, acepção de criatividade, quer como sinônimo de improvisação criadora, quer como responsável por soluções artísticas. Aproveitar o que pode ser improvisado é gerar substituições adequadas e também anômalas, consequentemente inadequadas. A vida em grupo, a estrutura frágil de algumas comunidades que são polarizadas em função da realização dos objetivos que a formaram - geralmente contingentes - cria verdadeiros híbridos de propósitos. Existem comunidades formadas para a prática de crimes, preocupadas em estabelecer paz e tranquilidade entre seus constituintes e isto equivale a uma reciclagem para satisfazer necessidades: para manter as ações criminosas precisa-se d...

Cordialidade e violência

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A cordialidade, o agir de coração, o ser generoso, dadivoso é um dos traços nacionais, segundo Sérgio Buarque de Hollanda. “O brasileiro é cordial", durante muito tempo se pensou assim e causa espanto a constante violência exercida na família, na política, nas grilagens, na usurpação de direitos exercida pelos brasileiros. Como entender? Foi a colonização? São as necessidades que desvirtuaram essa cordialidade? O brasileiro é cordial, age por coração, é espontâneo em seus desejos e necessidades, como é feliz por viver em um país tropical debaixo do Equador, ou seja, é circunstancial, dedicado a suprir necessidades e tudo aproveita do que lhe é apresentado. Um episódio recente desencadeou uma reação de grande proporção, reverberando nas redes sociais e outros veículos, que bem demonstra a violência insuspeita dos brasileiros, a enorme desproporção entre delito e punição reivindicada. Trata-se da condenação à morte, de um brasileiro na Indonésia, por tráfico de drogas. Esta c...

Filtros participatórios

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Relacionamentos reduzidos às dimensões utilitárias, pragmáticas e de ajuste têm, como características, módulos de absorção para incongruências, dissonâncias e incompatibilidades. Nestes relacionamentos, compreender, renunciar, negociar são maneiras de cobrir evidências, fluidificar o objetivo nítido e denso, encorpando à boa disposição e à tolerância, elementos sutis e não explícitos nas vivências de desencontro. Os próprios indivíduos em relação se transformam em um muro de contenção, para-choques de brigas e desentendimentos em função do que precisa ser mantido. Quando os relacionamentos se fundamentam em necessidades, aperfeiçoar a tolerância, a filtragem do que atropela, é o que permite a manutenção e aproveitamento do que antes era nocivo, cheio de impurezas. Pouca água potável requer desenvolvimento de sistemas de aproveitamento, de purificação - a vida tem que ser mantida. Relações difíceis, tempestuosas, personalidades abruptas precisam ser abraçadas, compreendidas. Viran...

Envolvimentos desintegradores

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Alguns envolvimentos afetivos sedam e apenas aplacam necessidades. Aplacar necessidades, das sexuais às de sobrevivência, é transformar o outro e a si mesmo em objeto, ou ainda, é manter e preservar um posicionamento contingente. Perceber o outro como possibilidade de satisfação e realização é uma maneira de estancar dificuldades, pendências e carências. A percepção do outro, quando se esgota em si mesma, quando não atribui valores, vantagens ou desvantagens, cria um contexto de disponibilidade, de vivência não atributiva, que pode integrar individualidades díspares. É a magia do encontro, do amor, frequentemente acontecendo, mas raramente continuando. A disponibilidade, a descoberta de outro ser, pode existir, mas, quando as estruturas são fragmentadas, posicionadas, autorreferenciadas, a duração deste processo é curta. São os átimos de paixão, os arroubos de ilusão, o desespero do desejo, facilmente atropelados, superados pela realidade da não aceitação. Quando o indivíduo não ...

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