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Valor e afeto

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  A trajetória humana se desenrola, geralmente, em torno de valorizar e ser afetado. Uma das implicações desse processo é situar o indivíduo, o ser humano, como receptáculo, como reagente. Nada é próprio, nada é legítimo. Apenas cadeias e circuitos são continuados. Os causalismos deterministas aristotélicos, tanto quanto as quimeras platônicas povoam esse universo, são as balizas que se deve seguir. As orientações criam expectativas e metas; é sempre um além do dado, além do que acontece. Não se está solto, desencadeado, descontínuo. Família, comunidade, país, época representam valores que situam, apoiam e significam.  Ir além do valor, ir além do situante, buscar novos referenciais é criar antíteses libertadoras e também aprisionadoras, mas é o que possibilita andar, descobrir, ser livre para novos valores e novos afetos. As contingências são limitadoras, pois visam apenas satisfazer necessidades e manter compromissos. Nesse sentido, a liberdade é sempre ilusão, visto que est...

O insurgente transformado em bode expiatório

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    Frequentemente, nas famílias, nas comunidades e até mesmo na sociedade surgem situações nas quais se deseja o desaparecimento de indivíduos ou grupos para trazer bem estar, calma e prosperidade. O filho drogado, delinquente, que rouba, que agride irmãos, avós e pais, que quebra objetos em casa, quando oferecido como vítima propiciatória e é morto pela prepotência policial, por exemplo, gera alívio, bem estar e tranquilidade. Nos grupos de trabalho ou nas escolas, às vezes tem alguém que reage contra injustiças, contra prepotências do patrão ou arbitrariedade de professores e essa reação o isola fazendo com que ele seja considerado ameaçador quando punições ao grupo são esboçadas. Inicialmente a reação contra opressão e injustiça é aplaudida, entretanto, à medida que surgem ameaças que a todos atingem, como corte de salários, demissões, corte de água e luz das casas etc. aparecem também pressões dentro do grupo para que o insurgente se desculpe e se redima. A vítima, o inju...

Mecanização, vazio e desespero

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" Sangro, logo sou " * Lendo Byung-Chul Han encontrei o seguinte: " Como quer que o chamemos, Ritzen, cutting ou o ato de se cortar é algo que se tornou hoje um fenômeno de massa entre os adolescentes. Milhões de adolescentes na Alemanha mutilam-se a si mesmos. De modo proposital se flagelam, causando feridas para sentir um alívio profundo. O método mais comum é se cortar com uma gilete. O ato de se cortar se desenvolve até se tornar um autêntico vício. Tal como ocorre com qualquer outro vício, o intervalo entre os atos de se cortar se torna cada vez menor, assim como as doses cada vez maiores. Assim, os cortes ficam cada vez mais profundos, sente-se "uma urgência de se cortar" ." * A descrição acima nos impõe uma série de constatações. A alienação, a coisificação estruturada pelos sistemas sociais e econômicos é de tal ordem que o indivíduo só sobrevive ao se transformar em máquina. As proposições familiares, que poderiam ser antíteses aos processos cois...

Atordoar

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  A descoberta de limites sempre estabelece referenciais, sempre cria possibilidades e impossibilidades, que, por sua vez, se transformam em novos limites e também em caminhos frequentemente limitadores e/ou libertários. A circularidade de propósitos configura uma rotação em volta do mesmo ponto. A expectativa ilude e a mudança não acontece. Repetição é manutenção, tornando-se assim o "caminho da humanidade". O que faz mudar, então? - O que leva à mudança é o sair do círculo. Como ultrapassar o estabelecido, o circunscrito? - Só se descomprometendo, não buscando resultados ou soluções para o que desespera; só assim se permite a mudança. Não é renunciar, não é abrir mão ou desistir, é apenas ir além do limitante, é a quebra de compromisso com o que vai resolver, com o que vai mudar; é essa atitude que dá lugar à mudança. A mudança não é síntese, não é resultante, ela é a outra perna, o outro lado, o aspecto não vislumbrado, consequentemente, o não limitante, desde que configur...

Entre verdades e mentiras, entre acertos e erros

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Como saber o que é verdade e o que é mentira hoje em dia? Essa pergunta faz imediatamente pensar em fake news . Como distinguir o que é falso? Como distinguir o que é errado? Recorrer a referenciais sociais, políticos, científicos permitem essa distinção, basta procurá-los. Na pandemia da Covid-19 por exemplo, era muito fácil verificar os abusos feitos em nome da ciência e da realidade, embora essa verificação se transformasse em missão impossível para os que se situavam apenas em bem e mal, acreditando em narrativas baseadas nesse maniqueísmo. Verdades e mentiras também remetem às noções de certo e errado, de cabível e incabível. Nesse contexto as motivações individuais precisam ser questionadas. É por meio desse questionamento que as respostas são encontradas. "Sair do armário", por exemplo, no que se refere à realização de motivações sexuais, é uma questão de ser fiel aos próprios desejos, tanto quanto implica questionamento da razão de negá-los. E assim, uma imensidão de ...

Saltos e piruetas

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  Ter objetivos definidos, desejos de superação de dificuldades e propósitos determinados, frequentemente funcionam como molas propulsoras. Esse estímulo constante faz com que se caminhe, se busque realizar desejos de complementar o que falta. Assim, propulsão constante, avidez e ganância funcionam como engolidores, neutralizadores da caminhada. Não se sabe como caminhar, não se vê como andar, mas se sabe onde se quer chegar. Todo relacionamento cria mudanças e a anulação de caminhos, o apagar de direções faz surgir novas posturas. Saltos e piruetas ilustram bem esse processo. Do caminhar em pé, bípede, descobre-se um jeito de cortar caminho, diminuindo dificuldades ao fazer piruetas. Enrolar-se em si mesmo para pisar-voar é a maneira, às vezes, de atingir objetivos impossíveis para o contínuo desenrolar de atitudes. Pular etapas roubando, por exemplo, mentindo, sugestionando, implorando, usando o outro é uma forma de atingir o que se deseja. Vitórias conquistadas pelo oportunismo ...

Perspectivas e limites

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Perceber limites é ampliar perspectivas, tanto quanto destruí-las. Tudo vai depender de como se vivencia o presente, o que está aqui e agora consigo. Quando o presente é pontualizado ele é apenas um trampolim, uma mola que impulsiona para o que se deseja ou para o que se teme. Ele não é percebido com tudo que o configura, ele é apenas o que está sendo útil ou o que está sendo inútil. É o propulsor, o que vai permitir chegar ao que se deseja. Qualquer base, qualquer ponte destruída, qualquer impedimento gera desejo, raiva ou depressão. Não se sabe o que fazer pois se vive em torno do mesmo ponto. Essa circunvolução cria mesmice. É a repetição que desespera, deprime, deixa todos os desejos e soluções ameaçadas. Essa vivência do obsoleto é expansiva, todas as coisas passam a significar dentro desse referencial, desse contexto de arcaísmo. Acabam as perspectivas, vem a depressão: o medo ou a vontade de morrer ao observar o impacto avassalador dos limites, da não perspectiva. Quando os limi...

"Se queremos preservar a cultura devemos continuar a criar cultura"

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    Outro dia, lendo Johan Huizinga - "Nas Sombras do Amanhã" (1935) - me detive na afirmação: "Se queremos preservar a cultura devemos continuar a criar cultura" . Nesse sentido podemos entender cultura como acúmulo de conhecimento, como baluarte civilizatório e assim perceber que a educação é o que vai possibilitar a continuidade dos processos culturais. O ir para diante, o continuar cultura e ampliar confortos civilizatórios, sempre aparece mesmo em pequenas soluções diárias, como por exemplo manter a caneta e o tinteiro agora substituídos pela esferográfica, ser capaz de transportar líquidos, como coca-cola e água engarrafada, entrar em contato com o outro e suas ideias pelos livros e blogs, a digitalização dos processos, os botões que a um aperto tudo resolvem, e até a destruição dos mesmos via acionamentos perigosos e proibidos. Tudo isso é cultura, é civilização, principalmente agora exercida pelos avanços tecnológicos, aspectos que atualmente caracterizam ...

Último acontecimento: guerra Ucrânia-Russia

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Para entender qualquer coisa que acontece é necessário perceber o contexto e as implicações do que está acontecendo. O fato, o acontecimento é apenas um elo, um instante de uma sucessão, de um processo. Todo acontecimento é um momento, congelamento de processo quando visto como um fato, pois nesse destaque a continuidade é artificialmente quebrada. Quando se fragmenta processos em explicações de causa e efeito cria-se uma linearidade, uma simplificação que apenas açambarca fatos transformando-os em fontes mecanicistas e explicativas. Achar, por exemplo, que se é médico, engenheiro, músico ou professor por ter vocação e talento é admitir prévios, causalidades determinantes. Essas explicações baseadas em determinismo e vocação negam, cancelam toda uma vivência cultural e histórica, todo o processo relacional que configura o estar no mundo. Nos últimos dias assistimos as explicações jornalísticas sobre a guerra da Ucrânia-Russia. O que se ouve, o que se vê é a criação de referenciais valo...

Monólogo e solidão

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A sucessão de fatos, de acontecimentos cria esclarecimentos, cria novidades ao ratificar ou retificar crenças. Essa simplicidade processual geralmente é desconsiderada. O que é esclarecido frequentemente se transforma em letra morta urdidora do que se quer ou do que se teme. Nesse contexto, esclarecimentos que poderiam se tornar alavancas de mudança se transformam em referenciais de lamentos e queixas. Os processos de esclarecimento permitem diálogo com o que nos circunda, com o que está diante e em nossa volta. Esse diálogo constante é o que possibilita questionamentos e consequentemente mudança. Ideias fixas, busca de realização de desejos, de superar faltas estabelecem monólogos. Rodar em torno do mesmo ponto, medir os passos não realizados, ansiar por solução é o que predomina no autorreferenciamento. O monólogo apaga o outro, apaga o mundo. É a maneira mágica e autorreferenciada de manter eterna solidão, carências e medos.

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