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Ideia fixa

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Obsessão, obstinação são os vários nomes para a redução do mundo aos próprios interesses e princípios, assim como a dogmas e pensamentos religiosos. É uma atitude resultante de insegurança e medo, que se caracteriza por necessidade de ter onde se apoiar, por precisar resolver as coisas o mais rápido possível.  Geralmente esta atitude rígida é fruto da não aceitação do presente. A rigidez faz com que não se perceba nada além do desejado, e quando o indivíduo se transforma no próprio desejo, ele aspira à uma concentração sem desperdício de pensamento, de ação, de motivação. As ideias fixas resultam também da incapacidade de apreender e aceitar a multiplicidade de variáveis ameaçadoras dos próprios interesses, e neste sentido, a ideia fixa é transformada em talismã, alavanca aceleradora das realidades pretendidas e ideadas. Sendo sempre um prévio, um a priori ao que acontece, a ideia fixa inibe participação, cria relacionamentos pontualizados, relacionamentos resumidos dos v...

Neutralizações

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Desejar o que não está contextualizado na própria realidade equivale a desejar o impossível. É uma meta, um sonho, um deslocamento de situação conflitiva, situação frustradora e de não aceitação que desemboca em vazio deslocado e saturado por desejos. Isto cria tensão impede tranquilidade, gera ansiedade e expectativas. Não há como realizar o desejo, tanto quanto não se consegue abrir mão do mesmo.  Aceitar mortificações, sacrifícios e disciplina são maneiras clássicas de enfrentar estes dilemas, entretanto, o abandono do desejado deixa um rastro de fragmentação, de divisão que passa a habitar o cotidiano sob a forma de insatisfação e frustração. Matar o desejo sem questioná-lo em suas motivações e implicações estruturantes é uma forma de iniciar processos de renúncia e de impossibilidades, é pavimentar caminhos depressores nos quais nada é possível, não se consegue realizar o que se deseja e a constante vivência é a de renunciar para evitar complicações. A permanente estrutu...

Desentendimentos

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O relacionamento entre duas pessoas cria desentendimentos quando os acontecimentos são percebidos em função dos referenciais específicos de cada pessoa. Memórias, não aceitações, autorreferenciamentos, frustrações geram atitudes de desconfiança, concorrência, afirmação de pontos de vista e utilização de oportunidades como afirmação dos próprios desejos de ser aceito e considerado. Quanto mais o contexto, quanto mais a vivência do presente é o denominador dos relacionamentos, mais neutralizadas são as diferenças individuais, entretanto, os antagonismos causados pelo autorreferenciamento, pela não aceitação, pelas problemáticas não resolvidas, interferem, pois não são neutralizados, são apenas acobertados, contidos pelos interesses comuns. Quaisquer expectativas não atendidas de um dos indivíduos, causa desequilíbrio, quebra o contexto comum e remete às configurações individuais. Discussão, desentendimentos, agressões, surgem. Nos relacionamentos nos quais predominam desentendi...

Uso, fé e vazio

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Acreditar no outro pode ser também abrir mão de si ou transformá-lo em um instrumento útil e necessário. Este implícito relacional cria impasses vivenciados como geradores de ansiedade. Geralmente não há questionamento, não se percebe as divisões, tampouco as implicações relacionais, apenas se vivencia sintomas: ansiedade, pânico, angústia. Pensar na ansiedade, pânico e angustia, como sintomas decorre de entendê-los como deslocamento de processos de divisão, fragmentação criadora de drenos esvaziadores, desvitalizadores, tanto quanto limitadores do estar no mundo, do estar com os outros. Organizar a própria vida, às vezes, significa organizar as próprias fraquezas e dificuldades. Neste processo, confiar, acreditar em alguém ou algo é necessário, é fundamental, seja como trampolim para os grandes saltos de realização e superação, seja como apoio. Precisar é excluir toda e qualquer possibilidade diferente das que satisfazem as necessidades. Achatado e apoiado nesta sobrevivênci...

Propósitos e ilusões

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Uma maneira considerada boa e privilegiada de educar filhos e alunos, de gerenciar situações e consequentemente realizar desejos, é estabelecer objetivos, estabelecer propósitos e assim criar caminhos, condições de realização do pretendido. É exatamente neste criar condições que se estabelecem os melhores caminhos, as menores distâncias e por conseguinte, se simplifica a pluralidade de interseções, se simplifica as inúmeras variáveis, criando segmentos lineares, determinantes de posicionamentos dos propósitos. Ao estabelecer as melhores condições para realizar um objetivo, dicotomiza-se, corta-se estruturas para que se adaptem, para que sejam do tamanho do sonhado, do desejado e com esta atitude, minimiza-se, diminui-se o pretendido. Representações começam  a significar, eventos de comemorações são mais significativos do que o que se comemora, a função encobre e pretende substituir seus estruturantes. Na clínica psicológica diária nos deparamos constantemente com questões de ...

Precariedade

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Quando se vive com expectativas, esperando resultados, torcendo para que sonhos e desejos se realizem, instala-se precariedade no cotidiano, na própria vida. A instabilidade, a insegurança, a vivência de falta, de não atendimento de demandas é constante. Essa precariedade resulta de não se viver o presente, de não se aceitar dificuldades e frustrações. Querer melhorar e ultrapassar dificuldades, sem considerar o que as determinam e ensejam, é uma atitude de não aceitação que gera revolta e ansiedade, matéria-prima da raiva, inveja, medo e intranquilidade. Flutuando, sem apoio no existente, pois o existente é o que se deseja ultrapassar, o indivíduo, inconsistentemente movimenta-se em função do que o protege e justifica, paradoxalmente se abriga nos próprios problemas, pois os mesmos justificam todas as suas dificuldades e vicissitudes. Agarrar-se em dogmas, em crenças, utilizando respaldos do que é garantido, do que funciona cria instrumentalização e reutilização. Nada é orig...

Empenhos

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Frequentemente, no afã de realizar os próprios desejos, se estruturam processos de cuidar do outro, de se dedicar ao outro. Pais e mães dedicados aos próprios filhos, por exemplo, os absorvem de tal modo que impedem o desenvolvimento de vida própria dos mesmos, constuindo assim, representantes de si próprios, mais tarde responsáveis pela manutenção e continuidade dos desejos familiares. Este empenho leva a sintonias, mas também pode ser dissonante, dissociado da própria individualidade. Realizar o esperado pelos pais é anulador: a transferência de sonhos e propósitos se dá sempre em um outro contexto e atmosfera, causando tensões aparentemente inexplicáveis, criando incapazes, viciados e desorganizados, tanto quanto brilhantes representantes do que foi ensinado, representantes dos treinamentos despersonalizadores. Em função dos empenhos buscados e realizados, as relações dentro das famílias vêm se desagregando cada vez mais. Hipotecar desejos e sonhos, por exemplo, cria dependênc...

Questionar

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Frequentemente se pensa em questionar como sinônimo de perguntar. Na Psicoterapia Gestaltista, questionar e perguntar não são sinônimos, referem-se a situações diferentes. Entendo questionar como sendo a fala, e até mesmo a pergunta, que resulta da globalização das inúmeras variáveis que interferem em um comportamento, em uma motivação. Desta forma, o questionamento permite sempre percepção do que não se percebia, do que era Fundo , do que era contexto estruturante da motivação, do que era estruturante do comportamento. Consequentemente, através de questionamentos são estabelecidas antíteses. Pensar em questionamento como sinônimo de pergunta é pontualizar, parcializar processos. Para o posicionado em zonas de conforto ou de necessidade é difícil apreender configurações relacionais, pois os momentos principais de seu dia-a-dia são esgotados em ordens convergentes ou divergentes. As reduções binárias - em função dos autorreferenciamentos de alívio/dor - impedem a apreensão das din...

Flexibilidade e enrijecimento

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Engessar, enrijecer é perder flexibilidade. Movimentos diminuídos, posicionamentos rígidos, assim como músculos enrijecidos (endurecidos), é o que acontece quando processos saturantes não são questionados. A imobilidade torna sem flexibilidade o que, por definição, existe apenas enquanto movimento, enquanto possibilidade de relação. Indivíduos compromissados, que se apegam rigidamente a pontos de vista, que não admitem outras visões além das próprias, que se sentem seguros e garantidos por a priori , assim como os tolerantes e bem intencionados, mas incapazes de perceber as inúmeras variáveis das situações à sua volta, bem exemplificam o processo de enrijecimento, de autorreferenciamento. Estar disponível, aceitar limites é flexibilidade no relacionamento com o outro e com o mundo. Poder entregar-se às paixões ou delas fugir é um exemplo de não endurecimento, de não compromisso com regra e desejo. É muito difícil, intolerável até, viver esmagado, bitolado por regras e desejos, ob...

O Nada - sem expectativas

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Estar contido, limitado pela vivência do presente é o que acontece em situações prisionais, conventuais e de exílio, onde a falta de perspectivas caracteriza a vivência cotidiana. Geralmente, toda situação de sobrevivência transforma o presente, o aqui e agora, em um ancoradouro, um porto seguro. Órfãos de guerra, crianças abrigadas por conventos e outras instituições são um exemplo onde a vida começa no intervalo do término. Não há antes, não se tem mais laços, não se tem contatos com o anterior estruturante de vivências. A nova vida é esgotada no agora, qualquer interrupção da mesma é a descontinuidade estruturadora de questionamentos, dúvidas e conflitos. Sem referenciais, sem respaldos, sem história - arquivos responsáveis por preferências e antipatias - o indivíduo colapsa e, ao se voltar para o existente, percebe estranheza: as familiaridades circunstancialmente estabelecidas não se mantêm. Da mesma forma, ao se voltar para o novo, ele é tragado por incertezas geradoras...

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