Postagens

Segurança econômica como libertação e realização

Imagem
Viver em função da necessidade de superar as próprias carências econômicas e sociais, galgar os degraus da melhoria econômica faz com que se seja aceito e considerado socialmente. Essas ideias se transformam em conceito - só significa quem tem dinheiro - dando suporte às ações dos empreendedores e também dos emergentes, tanto quanto de inúmeras pessoas que se reduziram a essa situação econômico-social. São equivalentes a Midas, que tudo que tocava virava ouro e assim morria de fome, não podia comer pão nem maçãs de ouro, pomos discordantes que não saciavam a sua fome. A única diferença é que os processos variam no tempo. Para Midas não houve sequência, instantaneamente percebeu a possibilidade de sobreviver - ia morrer de fome. Para os emergentes e os que tudo fizeram para enriquecimento, enriquecer era a solução mágica para seus desejos e frustrações, virar rico tudo resolvia; só que quando o processo se efetiva o que se vê é um monte de ouro que tem que ser cuidado, administ...

Antecipação

Imagem
Certezas antecipadas deprimem ou geram euforia. Saber que tudo começa e termina, que os processos existem, é entrar em circuitos infinitos. Quando isso acontece, as vivências se impõem e as certezas são suspensas. É o transpor de limites que tudo muda. Não necessariamente o que acontece mil vezes se repetirá a milésima primeira vez, como falava Kurt Lewin. Fazer a conta, ou seja, contabilizar é uma maneira de se retirar magicamente do que ocorre. Ou se vivencia, ou se contabiliza, isto é, contabilizar é uma vivência que superpõe e anula a outra vivência. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Essa superposição nega e resgata. Nega e resgata o quê? O que se pretende? Chegar onde? Os processos voltam a ser antecipados, é a certeza necessária que preenche o vazio do medo e da dúvida. A continuidade disso provoca compulsão: é preciso controlar, é necessário adivinhar para manter a antecipação. Nosso sistema econômico-social - capitalismo de mercado - ofere...

Inexorável

Imagem
Inexorabilidade é o que caracteriza os processos quando considerados sob o ponto de vista da continuidade, do movimento. O movimento é inexorável, consequentemente há transformação, e é essa constante contradição que estabelece vida, morte, ordem, desordem. O desenvolvimento de qualquer processo, dos orgânicos, dos sociais e econômicos aos psicológicos é gerado por expressão de suas estruturas. Essa inexorabilidade processual ilude, manifesta-se como permanência e assim é caracterizada em um mundo onde tudo é impermanente. Essa contradição só é apreendida quando se configura o denso e o sutil, o aparente e o real. Toda dualidade inexoravelmente conduz, expõe a unidade: a expressão, a manifestação do que ocorre, do que acontece. A descoberta das próprias não aceitações é um processo que inexoravelmente conduz à mudança quando se questiona as imobilizações, tanto quanto quando se nega essas imobilizações surgem divisões, mentiras e utilização das descobertas como dogmas e reg...

Inesperado

Imagem
Inesperado é o que solapa ou o que magicamente realiza desejos e sonhos. Estar à mercê nem sempre é uma atitude que se escolhe. O acaso permeia e situa tudo que está em nossa volta. O acaso e a necessidade, a contingência e o limite, o possível e o impossível, o desejo, o mundo, a vida, a morte, tudo isso se constitui no processo esperado e inesperado. As perpendiculares que se cruzam, que se encontram, que se esbarram são o inesperado, o próprio do processo tanto quanto seu impróprio, seu avesso. Uma paixão, um desejo, um cair doente são inesperados, entretanto, só acontecem a alguém ou a alguma coisa, ou seja, tem sempre um ponto de encontro, de captação. As grandes tragédias inesperadas são, por definição, sempre esperadas: é a falta de manutenção do avião, é o erro de sincronização, é a confluência do absurdo no real, é o encontro. Coincidir é esperar, é ter o espaço e o tempo para receber, tanto quanto o inesperado é o incongruente, o que não coincide. Às vezes...

Imprevisto

Imagem
O que não foi imaginado, ou ainda, o que não foi considerado, se constitui no imprevisto que neutraliza processos ou que, ao criar contradições, transforma em impasse a continuidade. Tsunami, morte, acidentes são imprevistos do ponto de vista de quem os sofre, tanto quanto são meras decorrências e continuidades processuais. Pensar que certas coisas estão fora de cogitação cria outras modalidades que açambarcam expectativas, escondem evidências e passam a ser vivenciadas e percebidas como imprevistos. Viver em função de objetivos, de resultados unilateraliza e assim fica-se cada vez mais à mercê dos imprevistos. O vencer ou vencer, o não ter condição de aceitar perdas vulnerabilizam. Transformar inúmeras variáveis em poucas ou únicas possibilidades é esvaziador. A certeza é um aniquilador de possibilidades quando passa a se constituir em apoio. A variação infinita e ambígua resulta da falta de referenciais estabelecedores de sua dinâmica. Não há eixo, tudo pode acontecer. Es...

Humano considerado humano

Imagem
Considerar humano como humano seria o óbvio. Perceber o outro, perceber a si mesmo como ser humano seria a constatação frequente de todos que lidam entre si. Esse óbvio é negado por construções aleatórias determinadas por valores restritivos. As diversas crenças e fés religiosas discriminam. Fazer parte de religiões e iniciações impõe rituais e regras que quando não atendidas criam os ímpios, os “filhos de satanás”, os bruxos, as bruxas. As ordens econômicas determinam os que mandam e os que obedecem. Visões preconceituosas estabelecem os que são normais, pecadores, doentes, saudáveis, consequentemente os que têm direitos, os que são seres de bem, seres humanos. De tanta fragmentação do conceito de humano é muito raro considerar humano como humano. Classificações como as de baixa-renda ou de grande poder aquisitivo, de merecedor de milhões de clicadas, tudo isso transforma a humanidade em pigmentado cipoal, selva onde é muito difícil perceber o humano como humano. Nietz...

Consumir

Imagem
Cinquenta anos atrás, consumir era sinônimo de alienação. Atualmente, consumir é um vetor de realização social. Quanto maior o consumo, maior a riqueza e a possibilidade econômica. Hoje em dia é por meio do sucesso econômico que se constrói o lugar social e nesse sentido os que não são bem sucedidos são alijados. Consumir é significar. Esse fazer parte individualiza por meio do pertencimento à equipe, é o team que se estende até a locais de entretenimento ou de moradia. No livre mercado o que importa são as moedas de transação. Ter o que vender e poder comprar estabelecem circuitos nos quais circulam o necessário, mesmo que indevidamente. Os que estão na base da pirâmide servem de apoio para que poucos atinjam seu topo. Tudo pode ser consumido, do próprio corpo à própria cabeça e alma. Autoconsumir-se obriga à criação de aparência, utilizando imagem, apoderando-se de narrativas sancionadas como edificantes e válidas. Esse processo canibaliza e esvazia, expressando-se de di...

Ressentimentos e submissão - Ética do oprimido

Imagem
Queima de livros durante o nazismo Nietzsche dizia que “a moral do ressentimento é a moral do escravo” . O ressentimento agrupa e comanda pessoas submetidas a medos, ódio e raiva, e é nesse sentido que Nietzsche fala em escravos, ou seja, alguém que é diferente do homem livre, pois sem autonomia está submetido a seus opressores. Ter inveja, ter ódio, ter mágoa e não poder expressá-las produz ressentimentos e frustração. São as vítimas oprimidas que escolhem sempre bodes expiatórios para extravasar seus medos, seus ódios, ou pior, utilizam sugestões, aceitam bodes expiatórios para drenar seus ódios. No nazismo assistimos às multidões ressentidas e determinadas destruirem sinagogas. Nas atuais sociedades democráticas, a política, as redes sociais, os pilares democráticos corroídos e destruídos servem para veicular ódio, medo, rejeição a determinados segmentos sociais e étnicos. Ter inveja e raiva e não conseguir expressá-los por medo e submissão, seja a familiares, cônjuges...

Marcos civilizatórios - Duas ceias

Imagem
O Banquete de Platão O ir além do próprio dia a dia da sobrevivência e manutenção constrói dimensões diversas para o humano. Acompanhar o processo de seu estar no mundo, configurar e atribuir significados aos mesmos estabelece rotinas e rituais. A descoberta do fogo, possibilitando cozinhar, leva a abandonar o cru e, assim também o perecível, o que não repõe o necessário para a nutrição. A longevidade, a durabilidade do que é caçado como alimento que supre, foi conseguida. O fogo conserva! Essas pequenas descobertas no mundo pré-histórico equivalem à descoberta do transistor . Portabilidade, adequação e simplificação permitem ritualizações que transcendem o mero caça-coleta que caracterizava as sociedades antigas. George Steiner, no final de seu livro “Nenhuma paixão desperdiçada” , ao contar a experiência de inúmeras significações, a complexidade cênica e os jogos dinâmicos entre sutileza e generalidade, enfatiza nosso legado cultural marcado por duas ceias: o banquete de...

Prudência (2)

Imagem
Atitudes prudentes são sempre expressões, até mesmo sintomas, de medo ou de coragem. Essa dualidade antagônica pode ser entendida quando se configura o prolongamento do ponto que unifica a contradição. A cautela que caracteriza a prudência pode estar encobrindo medos e ambições ou impulsionando coragem e transformações. Ter uma meta, objetivo ou sonho desvinculado da própria realidade e contextos estruturantes, obriga à busca de apoios, sejam como empréstimo ou adoção. Pedir, conseguir o empréstimo nem sempre é fácil, requer astúcia fantasiada de prudência. O astucioso tem sempre medo de ter seus objetivos descobertos. Seus propósitos, se revelados, fracassam, e assim seriam negados ou imitados; daí astucia, medo, covardia, prudência serem seus aliados, seus instrumentos, suas armas de guerra. Quanto maior a prudência, maior a possibilidade de conseguir, de enganar. Prudência diante do emaranhado de desvios, das nuances arbitrarias que impedem a livre realização da auton...

Contato

verafelicidade@gmail.com